Os padrões ISSB e IFRS S1 e S2 estão mudando a forma como os riscos corporativos são avaliados. Entenda por que isso importa para organizações de todos os setores — da indústria naval ao agronegócio, da manufatura aos serviços.
Imagine uma empresa prestes a contratar um estaleiro para construir uma plataforma offshore. O projeto envolve centenas de milhões de reais, vários anos de trabalho e uma extensa cadeia de fornecedores. Qualquer atraso pode gerar prejuízos expressivos.
Por isso, o cliente não analisa apenas preço e capacidade técnica. Ele precisa confiar que o estaleiro entregará o projeto no prazo, com qualidade e em conformidade com a legislação. Também quer saber se o fornecedor identifica e administra riscos relacionados à sustentabilidade que possam comprometer o contrato.
Esses riscos vão além do meio ambiente. Podem envolver eventos climáticos extremos, acidentes de trabalho, falhas na cadeia de suprimentos, conflitos com comunidades, mudanças regulatórias e problemas de governança capazes de gerar impactos financeiros e reputacionais.
Durante muito tempo, cada organização apresentou essas informações de uma maneira diferente. Isso dificultava comparações e aumentava a incerteza de quem precisava investir, conceder crédito, contratar um seguro ou escolher um fornecedor estratégico.
Foi para enfrentar esse problema que surgiu o International Sustainability Standards Board (ISSB). Seus padrões estabelecem uma linguagem comum para divulgar, de forma consistente e comparável, riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade.
Talvez você nunca tenha ouvido falar em ISSB. Até alguns anos atrás, o termo também parecia complexo para mim. Ao aprofundar meus estudos, percebi que sua lógica é simples: ajudar quem toma decisões a compreender como a sustentabilidade pode influenciar o futuro de um negócio.
Neste artigo, explico como o ISSB está mudando a avaliação das empresas e por que isso pode fortalecer a competitividade, facilitar o acesso a crédito e aumentar a confiança de quem faz negócios com sua organização.
O que são ISSB e IFRS S1 e S2?
Costumo dizer que, no ambiente empresarial, sustentabilidade também é gestão de riscos e continuidade dos negócios. O ISSB ajuda a transformar essa ideia em informações úteis para a tomada de decisão.
Criado pela IFRS Foundation, organização responsável pela estrutura das normas internacionais de contabilidade, o ISSB publicou, em 2023, seus dois primeiros padrões: IFRS S1 e IFRS S2.
O IFRS S1 estabelece os requisitos gerais para a divulgação de riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade que possam afetar os fluxos de caixa, o acesso a financiamento ou o custo de capital no curto, médio ou longo prazo.
Isso não significa publicar todas as ações ambientais e sociais da empresa. O foco está nas informações materiais, isto é, naquelas relevantes para avaliar as perspectivas do negócio. A divulgação deve tratar de governança, estratégia, gestão de riscos, métricas e metas.
O IFRS S2 complementa essa estrutura com requisitos específicos sobre clima. Ele abrange riscos físicos, como enchentes, secas e ondas de calor, e riscos de transição associados a novas leis, tecnologias e mudanças de mercado. Também contempla oportunidades climáticas, emissões de gases de efeito estufa, metas e capacidade de adaptação.
Em resumo, o IFRS S1 apresenta a estrutura geral, enquanto o IFRS S2 aprofunda a dimensão climática.

Como o ISSB se aplica na prática e chega ao relatório?
A aplicação do ISSB começa na gestão. Primeiro, a empresa identifica os riscos e as oportunidades relacionados à sustentabilidade que podem afetar seus resultados, contratos, acesso a crédito ou continuidade operacional.
Depois, avalia os possíveis efeitos sobre custos, prazos e receitas, define responsáveis e estabelece controles, indicadores e metas. Só então essas informações chegam ao relatório, conectadas à estratégia e aos dados financeiros da organização.
Conforme o IFRS S1, a empresa deve explicar quem supervisiona os riscos, como eles influenciam a estratégia, como são gerenciados e quais resultados são acompanhados. Quando o tema é climático, o IFRS S2 acrescenta os requisitos específicos dessa área.
Portanto, o relatório não deve ser apenas uma lista de projetos ambientais ou sociais. Ele precisa demonstrar como a empresa identifica, administra e comunica os fatores que realmente podem afetar o negócio.

Como os padrões ISSB aumentam a confiança nos negócios
Os padrões do ISSB foram desenvolvidos principalmente para atender às necessidades de investidores, bancos e outros credores. Entretanto, informações organizadas, comparáveis e sustentadas por dados também apoiam decisões de clientes, seguradoras e parceiros comerciais.
Voltemos ao exemplo do estaleiro. Antes de contratar a construção de uma plataforma, o cliente pode querer saber se o fornecedor possui planos para acidentes graves, atrasos de equipamentos críticos, dificuldades no licenciamento, conflitos com comunidades ou eventos climáticos capazes de interromper a produção.
Pelo IFRS S1, o estaleiro deve demonstrar quais desses riscos podem afetar o contrato, quem os supervisiona, quais medidas foram adotadas e quais indicadores são acompanhados. Se o risco envolver clima, o IFRS S2 complementa a análise, por exemplo, com informações sobre interrupções provocadas por eventos extremos ou mudanças tecnológicas associadas à redução de emissões.
Essas informações não garantem crédito nem contratos e não funcionam como um certificado de empresa sustentável. Elas ajudam quem decide a avaliar se existe uma gestão sólida por trás da proposta apresentada.
Quando os dados estão dispersos ou limitados a declarações institucionais, a análise se torna mais difícil. Quando estão conectados à estratégia e sustentados por evidências, a empresa transmite mais confiança.
A lógica vale para qualquer setor. Uma indústria dependente de água, uma empresa agrícola exposta a variações climáticas ou uma fábrica integrada a cadeias globais também precisa demonstrar como administra fatores capazes de afetar custos, produção, contratos e acesso a mercados.
Como está a adoção do ISSB no Brasil?
O Brasil incorporou os padrões do ISSB ao ambiente regulatório do mercado de capitais por meio da Resolução CVM 193, publicada em 2023.
Em maio de 2026, a Resolução CVM 244 retirou a obrigatoriedade que havia sido prevista para as companhias abertas. A adoção passou a ser voluntária, no modelo “pratique ou explique”. As companhias que optarem por publicar informações financeiras relacionadas à sustentabilidade devem observar os padrões do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS) e do ISSB.
Isso não torna o tema menos relevante. Empresas inseridas em cadeias globais, interessadas em financiamento internacional ou fornecedoras de grandes organizações podem continuar recebendo solicitações sobre emissões, riscos climáticos, condições sociais, governança e cadeia de valor.
Mesmo sem obrigação direta, uma empresa pode ser alcançada pelas exigências de clientes, controladores, bancos e parceiros comerciais.
ISSB e confiança: o que o empresário precisa entender
O ISSB não substitui qualidade, capacidade técnica, preço competitivo ou saúde financeira. Ele acrescenta uma dimensão cada vez mais valorizada: a capacidade de demonstrar como riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade são considerados nas decisões do negócio.
Empresas confiáveis não são aquelas que afirmam não ter riscos. São as que conhecem suas vulnerabilidades, explicam como as administram e apresentam informações coerentes com a realidade.
Para bancos e investidores, isso melhora a análise financeira. Para grandes clientes, aumenta a segurança de que os contratos serão cumpridos. Para a própria organização, fortalece a gestão e a preparação para mudanças.
No fim, o ISSB é mais do que uma nova forma de reportar sustentabilidade. É uma linguagem que ajuda a empresa a demonstrar que está preparada para continuar entregando resultados com qualidade, responsabilidade e visão de longo prazo.
Para continuar aprendendo
Compreender o ISSB não significa dominar todas as normas de uma só vez. O primeiro passo é reconhecer quais riscos relacionados à sustentabilidade podem afetar o negócio e começar a integrar essas informações à estratégia, às operações e às decisões financeiras.
Para aprofundar seus conhecimentos, consulte o IFRS Sustainability Knowledge Hub, que reúne materiais introdutórios e cursos gratuitos sobre IFRS S1 e IFRS S2. No Brasil, acompanhe as orientações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e os pronunciamentos do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS). Para informações específicas sobre a descarbonização do transporte marítimo, a Organização Marítima Internacional (IMO) disponibiliza sua estratégia oficial de redução das emissões.
Sustentabilidade pode parecer complexa no início, mas sua essência é simples: conhecer os riscos, preparar a empresa para enfrentá-los e demonstrar, com transparência, que ela está pronta para continuar gerando valor.
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Sou Aparecida Demoner Ramos, bióloga pela UFES, Mestre em Novas Tecnologias Ambientais e especialista em Gestão e Manejo Ambiental e em Administração Pública. Autora do Livro: Anfíbios do Goiapaba-açu. Atuo há 14 anos como Coordenadora de Sustentabilidade na construção naval, liderando a aplicação prática de ESG na indústria.

