Microalgas e captura de carbono

Microalgas e captura de carbono: solução climática ou promessa?

Mercado de Carbono

Outro dia eu estava pesquisando sobre  microalgas e captura de carbono quando esbarrei em um artigo interessante Eu não sabia que os estudos sobre o tema já haviam evoluído tanto.

Confesso que me empolguei tanto com a ideia que levantei da cadeira e olhei pela janela, tentando enxergar um cantinho perfeito para esses tanques no nosso estaleiro. Parecia cena de projeto futurista. Só que não é. A ciência por trás dessa ideia já existe, já é aplicada. Na minha cabeça, já conseguia até ouvir meu chefe perguntando se aquilo era viável, se iria funcionar, e tantas outras dúvidas que nos vem à cabeça quando se trata do tema carbono.

É isso que eu quero te convidar a fazer neste artigo: vamos aprender juntos. Não vou esgotar o assunto nem entrar em todos os detalhes técnicos, mas vou falar sobre como funciona, na prática, a captura de carbono por microalgas, quais são os limites dessa tecnologia, em que condições ela realmente contribui para a mitigação climática e por que essa discussão importa tanto para empresas — como a naval, onde atuo — que buscam soluções sustentáveis genuínas, e não apenas mais uma promessa verde.

O que são microalgas?

Vamos começar pelo básico. As microalgas são organismos microscópicos encontrados em ambientes marinhos e de água doce. Como as plantas, muitas delas realizam fotossíntese: utilizam luz e dióxido de carbono para crescer, liberando oxigênio e acumulando carbono em sua biomassa.

Apesar do nome, elas não formam um único grupo. Existem milhares de espécies, com características diferentes de crescimento, composição e resistência. Algumas são ricas em proteínas; outras acumulam óleos, pigmentos, carboidratos ou compostos de interesse para as indústrias alimentícia, farmacêutica, cosmética e energética.

Essa diversidade ajuda a explicar por que as microalgas despertam tanto interesse. Elas não são apenas uma forma de capturar carbono. São pequenas fábricas biológicas capazes de transformar CO₂ em matérias-primas.

Como as microalgas capturam CO₂?

Aqui voltamos no tempo, lá no ensino fundamental quando nossa professora de ciências nos ensinou sobre fotossíntese. Durante a fotossíntese, as microalgas absorvem o dióxido de carbono disponível na água ou fornecido ao sistema de cultivo. Esse carbono é incorporado às células e convertido em biomassa.

O cultivo pode ocorrer principalmente de duas formas:

  • em tanques abertos, semelhantes a lagoas rasas, com menor custo de construção, mas maior exposição a contaminações e variações climáticas;
  • em fotobiorreatores fechados, nos quais luz, temperatura, nutrientes e entrada de CO₂ podem ser controlados com maior precisão.

O desempenho depende da espécie escolhida, da intensidade luminosa, da temperatura, do pH, da concentração de nutrientes e da qualidade da fonte de carbono. Uma revisão científica publicada em 2024 destaca justamente essas variáveis como determinantes para a eficiência da captura de CO₂ por microalgas.

Portanto, não basta instalar um tanque verde ao lado de uma indústria. É preciso criar as condições para que o sistema capture mais carbono do que emite durante sua construção e operação.

Capturar carbono é o mesmo que removê-lo?

Aqui está o ponto que costuma desaparecer dos discursos mais entusiasmados.

Se uma microalga absorve CO₂ industrial e sua biomassa é usada para produzir combustível, o carbono provavelmente retornará à atmosfera quando esse combustível for queimado. O processo pode substituir parte do carbono fóssil e reduzir emissões, mas não representa necessariamente uma remoção duradoura.

O mesmo raciocínio vale para produtos de rápida decomposição. Se a biomassa virar ração ou fertilizante, parte do carbono poderá retornar ao ambiente em pouco tempo.

Para existir remoção de carbono, é necessário retirar CO₂ da atmosfera — direta ou indiretamente — e mantê-lo armazenado por um período relevante. Isso pode envolver, por exemplo, a conversão da biomassa em materiais duráveis, biochar ou outras formas estáveis de armazenamento, sempre acompanhadas por avaliação científica.

É por isso que o destino da biomassa importa tanto quanto sua velocidade de crescimento.

Toda microalga pode gerar crédito de carbono?

Não. O cultivo de microalgas não gera automaticamente créditos de carbono.

Um projeto precisa utilizar uma metodologia reconhecida e demonstrar que o benefício climático é real, mensurável e adicional. Também deve contabilizar as emissões provocadas pelo uso de energia, bombeamento, iluminação artificial, nutrientes, colheita, secagem, transporte e processamento.

Os Princípios Fundamentais do Carbono do ICVCM estabelecem critérios importantes para créditos de alta integridade, como:

  • adicionalidade;
  • permanência;
  • quantificação robusta;
  • verificação independente;
  • ausência de dupla contagem;
  • salvaguardas ambientais e sociais.

Se o projeto consumir muita energia de origem fóssil, o benefício climático pode diminuir ou até desaparecer. A análise correta deve considerar todo o ciclo de vida, e não somente o CO₂ que entrou no tanque.

Onde está a oportunidade de negócio?

Processo para captura de carbono por microalgas

A oportunidade mais consistente pode estar na combinação entre captura de carbono e geração de produtos de maior valor.

A biomassa de microalgas pode ser utilizada na fabricação de:

  • biofertilizantes e outros bioinsumos;
  • alimentos e suplementos;
  • ração para animais e aquicultura;
  • pigmentos e compostos para cosméticos;
  • biocombustíveis;
  • bioplásticos e materiais de base biológica;
  • produtos para tratamento de águas residuais.

O Departamento de Energia dos Estados Unidos estimou, em um estudo de potencial técnico, que áreas adequadas daquele país poderiam produzir até 152 milhões de toneladas de biomassa de microalgas por ano e utilizar 268 milhões de toneladas de CO₂. O próprio estudo alerta que os custos da biomassa ainda são superiores aos de várias fontes terrestres, podendo ser compensados pela produção integrada de combustíveis e produtos de maior valor. Esses números representam potencial, não produção comercial já alcançada. Veja o relatório do Departamento de Energia dos EUA.

Esse modelo integrado é chamado de biorrefinaria. Em vez de depender de uma única receita, o empreendimento aproveita diferentes componentes da biomassa e cria vários produtos.

Para as empresas, essa diversificação pode ser mais estratégica do que apostar exclusivamente na venda futura de créditos de carbono.

Microalgas, indústria e economia circular

Um projeto pode se tornar ainda mais interessante quando resolve mais de um problema.

Microalgas podem ser cultivadas com determinadas correntes de CO₂ industrial, utilizar águas salinas ou residuais em condições controladas e recuperar nutrientes presentes em alguns efluentes. A biomassa resultante pode alimentar outra cadeia produtiva.

Nesse desenho, o resíduo de uma operação torna-se insumo para outra.

Uma indústria, por exemplo, poderia avaliar o uso de CO₂ concentrado no cultivo de microalgas enquanto uma empresa de biotecnologia processaria a biomassa. Universidades e centros de pesquisa ajudariam na seleção das espécies e no monitoramento. Outras empresas comprariam os bioinsumos produzidos.

Essa integração pode gerar inovação, empregos qualificados e desenvolvimento regional. Mas precisa ser construída com governança: responsabilidades definidas, dados rastreáveis, critérios ambientais e transparência sobre os resultados.

Microalgas e economia azul

Para regiões costeiras, a tecnologia também se conecta à economia azul — o uso sustentável dos recursos oceânicos para gerar desenvolvimento econômico, inclusão social e conservação ambiental.

O Brasil reúne extensa costa, biodiversidade, universidades, atividades portuárias, aquicultura, indústria naval e diferentes cadeias capazes de utilizar biomassa e bioinsumos. Essa combinação cria espaço para projetos-piloto ligados a microalgas marinhas, tratamento de efluentes, biotecnologia e produtos de base biológica.

Isso não significa instalar cultivos sem avaliar impactos. Espécies utilizadas, riscos de escape, uso da água, nutrientes e interferências nos ecossistemas precisam ser analisados. A economia azul só é sustentável quando a oportunidade econômica respeita os limites ambientais.

Quais desafios ainda precisam ser superados?

O primeiro desafio é o custo. Cultivar, separar e secar organismos microscópicos pode exigir equipamentos e energia. A colheita da biomassa permanece como um dos gargalos técnicos e econômicos.

Também existem dificuldades relacionadas à estabilidade do cultivo, contaminações, variações de temperatura, disponibilidade de luz e manutenção da produtividade em grande escala.

Outro desafio é a permanência do carbono. Produzir biomassa rapidamente não resolve a questão climática se o carbono retornar à atmosfera logo depois.

Por isso, projetos sérios precisam responder:

  1. Qual é a origem do CO₂ utilizado?
  2. Quanta energia será consumida?
  3. Qual será o destino da biomassa?
  4. Por quanto tempo o carbono permanecerá armazenado?
  5. Existe metodologia reconhecida para medir o resultado?
  6. O projeto é viável sem depender de promessas exageradas?
  7. Quais benefícios ambientais e sociais serão gerados?

Afinal, microalgas são uma solução climática viável?

Depois de tudo o que pesquisei para escrever este artigo, voltei àquela imagem do início: eu olhando pela janela e imaginando os tanques de microalgas instalados em algum cantinho do estaleiro. Mas agora consigo enxergar essa ideia com um pouco menos de empolgação e muito mais clareza.

Se meu chefe realmente me perguntasse: “Isso é viável?”, minha resposta seria: sim, pode ser viável — mas não basta construir alguns tanques, colocar microalgas dentro e esperar que elas resolvam nossas emissões. E recomendaria investir esforços no projeto numa área de recuperação ambiental.

Do ponto de vista técnico, já sabemos que funciona. As microalgas conseguem utilizar CO₂ durante a fotossíntese e transformá-lo em biomassa. Portanto, não estamos falando  de uma tecnologia que existe apenas no papel.

Mas capturar CO₂ não significa, automaticamente, gerar um benefício climático. Para isso, o sistema precisa capturar mais carbono do que emite durante a construção e a operação. Também precisamos saber de onde vem a energia utilizada, quanto será gasto com bombeamento, nutrientes, colheita e processamento e, principalmente, o que será feito com a biomassa produzida.

Se esse carbono retornar rapidamente à atmosfera, não teremos uma remoção permanente. Ainda poderá existir redução de emissões ou substituição de matérias-primas fósseis, mas é importante chamar cada resultado pelo nome certo.

E a viabilidade econômica?

Aqui está uma das partes mais importantes. Hoje, projetos que dependem apenas da captura de carbono ou da venda de créditos ainda podem enfrentar dificuldades para fechar a conta. O cultivo, a separação e a secagem das microalgas custam dinheiro e consomem energia.

A situação se torna mais interessante quando o projeto resolve vários problemas ao mesmo tempo. As microalgas podem utilizar CO₂, auxiliar no tratamento de determinados efluentes e ainda gerar biomassa para a produção de bioinsumos, pigmentos, alimentos, cosméticos, materiais ou outros produtos.

É nesse modelo integrado que consigo enxergar a oportunidade mais concreta. Em vez de perguntar apenas “quanto carbono esse tanque captura?”, talvez devêssemos perguntar também: “que problema ambiental ele resolve e que produto podemos criar a partir dessa biomassa?”

Para uma indústria — inclusive um estaleiro — eu não começaria construindo grandes estruturas. Começaria com um estudo de viabilidade e um projeto-piloto envolvendo uma universidade. Seria necessário identificar as fontes de CO₂ disponíveis, avaliar o consumo de energia e água, escolher as espécies adequadas, definir o destino da biomassa e calcular o balanço de emissões de todo o processo. Só em pensar..fiquei cansada.

Então, as microalgas são uma solução climática ou apenas mais uma promessa?

Minha resposta é: podem ser uma solução climática, ambiental e econômica, mas ainda não são uma alternativa simples, barata ou viável para qualquer empresa. A tecnologia faz mais sentido quando está integrada à economia circular, ao tratamento de efluentes e à produção de itens de maior valor. Sem planejamento, medição e um uso definido para a biomassa, corre o risco de permanecer apenas como uma bonita promessa verde.

Talvez a inovação comece justamente assim: não com uma resposta pronta, mas com as perguntas certas, um projeto-piloto bem planejado e a disposição de medir os resultados com honestidade.

E se você conhece sobre esse tema ou já implantou o sistema, compartilhe suas idéias nos comentários. Vamos aprender juntos!

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